Ruínas do Sanatório

As Ruínas do Sanatório se encontram em Delfim Moreira-MG, no alto da Serra da Mantiqueira. O complexo foi inaugurado em 1908 e atendeu pacientes militares acometidos de tuberculose até 1915. Um lugar de história e natureza fascinantes.

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Sanatório Militar Lavrinhas1
Sanatório Militar Lavrinhas (arredores)
Sanatório Militar 1908-1915
Ruínas
 

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Conheça a história.

Fizemos uma ampla pesquisa nos arquivos dos jornais da época e recontamos aqui esta história cheia de curiosidades.

BARÃO DE BOCAINA - MAIS VELHO

Barão de Bocaina

As terras para construção do Sanatório foram doadas pelo Barão de Bocaina, o Sr. Francisco de Paula Vicente de Azevedo. Influente membro da elite brasileira, o barão possuía vasta extensão de terras na Serra da Mantiqueira. Na época, uma imensa área de montanha próxima ao Vale do Paraíba era conhecida como Campos do Jordão; que vai desde onde se assentou a cidade de mesmo nome até onde hoje se localiza o município de Delfim Moreira. Esta parte norte dos Campos do Jordão fica em terras do estado de Minas Gerais e eram em sua maior parte de propriedade do Barão de Bocaina. Foi aqui que ele fundou a primeira estância climática do país e onde assentou sua fazenda, famosa pelo bem sucedido cultivo de frutas de clima temperado, tais como pera, morango e marmelo.

 

12 de março de 1903,

foi quando começaram as obras do primeiro hospital para tuberculosos na Serra da Mantiqueira. O Sanatório Militar foi um complexo de cinco prédios inaugurado em 1908 e desativado precocemente em 1915. Os cientistas da época acreditavam que a climaterapia, ou seja, a terapia através do clima ameno, era o melhor tratamento para doenças respiratórias. O clima frio da Mantiqueira foi considerado perfeito para a tentativa de cura desses pacientes.

As terras para a construção do Sanatório foram doadas para o exército pelo influente membro da elite paulista, o Barão de Bocaina. Na mesma época ele também doou terras para a construção de uma fábrica de pólvora sem fumaça, na cidade paulista de Piquete. Em sua fazenda na serra mineira foi fundada a primeira estância climática do país, que ficou famosa pelo bem sucedido cultivo de frutas de clima temperado, tais como pera, morango e marmelo. Na época, uma vasta região de montanhas era conhecida como Campos do Jordão, incluindo onde hoje se localiza o município mineiro de Delfim Moreira - e onde foi construído o sanatório.

Para ilustrar, leia este anúncio de 1900 no jornal carioca Gazeta de Notícias: «Campos do Jordão. - Hotel S.Francisco - Na aprazivel e saudavel localidade de S. Francisco dos Campos, excellente ponto para estação de verão, em altitude de 1.600 metros sobre o nivel do mar, na serra da Mantiqueira, seis leguas da estação de Lorena (Estrada de Ferro Central do Brasil) Diaria 8$.» Interessante notar que na época a 'alta temporada' de montanha era no verão. E uma diária neste hotel custava 8 réis. Para fins de comparação, na mesma edição do jornal há um anúncio de xarope para os pulmões que custavam 2 réis (foto). Ou seja, uma diária custava o mesmo que quatro vidros de xarope.

Ao contrário dos estereótipos de hospitais isolados, o Sanatório parecia mais um retiro de montanha. Havia mortes sim, como provam os cemitérios da região, mas não foi um lugar somente de dor e sofrimento. Por um período foi um point de efervescência cultural, como descreve o Sr. Wanderley Gomes Sardinha, membro da Academia Lorenense de Letras: «O local de reunião, após o jantar, era junto ao piano. Inúmeros cantores que se apresentaram no hospital tiveram acompanhamento pianística. Mário Pinheiro, o maior cantor do Brasil, no começo do século passado, Roque Ricciardi, o seresteiro da Pauliceia, Eduardo Neves e tantos outros.» A maioria dos pacientes eram praças e oficiais idosos, muitos ex-combatentes da Guerra do Paraguai, que aconteceu 40 anos antes.

O tempo passou, uma série de acontecimentos se sucederam e, hoje, do famoso Sanatório Militar sobraram as silenciosas ruínas e suas curiosas histórias. Para o turista, especialmente aventureiro, conhecer este lugar isolado na montanha é uma verdadeira viagem no tempo. É como se fizéssemos uma visita à uma Campos do Jordão anterior à urbanização. Campos de altitude de pulmões limpos.

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Jornalista responsável: Rayllei Bandeira

 

Trajetória nos jornais da época.


 
 
Doação de terreno
 

1893 - O jornal "Correio Paulistano" noticia a doação de terras pelo Barão de Bocaina para a construção de um hospital militar de convalescentes. A descrição do terreno exalta as belezas naturais do lugar: "Neste sítio donde descortina larguissimo horisonte, o terreno, um tanto accidentado, é secco, o ar ameno e a aguada facil e abandante."

 
 
Viagem a Campos do Jordão
 

1893 - No mesmo ano o jornal "Correio Paulistano" faz um relato detalhado de toda a região norte dos Campos do Jordão. A viagem se inicia na cidade de Lorena, no Vale do Paraíba. Na subida da serra de Piquete o colunista relata: "Bellissimo panorama o que se descortina do alto destes monte, quasi a topetar com as nuvens ! A encosta que acabamos de vencer rasga-se-nos aos pés em abysmo profundo de onde apenas emerge o cimo do mais alto alvoredo."

 
 
1893 - Viagem à Mantiqueira - recorte2
 

1893 - O relato de viagem do Correio Paulistano continua noutra edição do jornal, já nas terras da fazenda do barão: "Os fruotos da Europa ahi vêm como se foram nativos: a maça, a pera, os morangos rasteiros, os marmelos, a amendoa, todos os productos horticolos ahi tem um solo dos mais adequados ao seu desenvolvimento."

Muito interessante como o colunista idealizava uma cidade de férias que ali poderia se instalar, com casas espalhadas entre a vegetação. Interessante também notar que, na época, era costume que a montanha fosse um refúgio de verão e não de inverno: "Uma estação de verão ahi teria o seu melhor assento. As ruas traçadas em bellos e suaves contornos pela encosta dos montes, as casas de campo espalhadas sem essa preocupação burgueza das prosaicas symetrias. (...) Tudo quasi ao natural e sem outra arte que não a de não ter arte nenhuma, completar e não corrigir."

 

 
 
1901 - Exército estudo terras do Barão de Bocaina
 

1901 - Em nota, o jornal "O Paiz" fala de visita ao Ministro da Guerra do encarregado dos estudos sobre a viabilidade da construção do sanatório para tuberculosos.

 
 
1902 - Opiniões sobre o Sanatório - recorte
 

1902 - Na coluna de opinião do jornal "O Paiz" o colunista critica a suposta construção de uma estrada de ferro desde Itajubá da Soledade (atual Delfim Moreira) até o Estado de São Paulo. Esta estrada nunca foi construída e talvez nunca houve um plano para tal, já que seria um empreendimento de grande complexidade. O acesso continuou a ser feito a cavalo, mulas ou carros de boi.

O colunista continua a crítica: "A idéa da fundação de um sanatório em um zona continuamente açoitada de ventos, humida, fria, cuja reputação de salubridade consta apenas do testemunho bairrista; local suspeito e caipora, onde, de memoria de ninguem, jamais curou-se um tisico ou se aguentou elle um mez, está pedindo piadas de Don Nuno. Quim !"

 
 
1902 - Aprovação do Ministro da Guerra - recorte
 

1902 - O jornal "O Paiz" relata visita do Barão de Bocaina ao Ministro da Guerra no Rio de Janeiro, então capital do país. O ministro aprova o projeto do sanatório. Nesta nota o jornal diz ainda: "A nova enfermaria terá capacidade para 120 leitos, sendo 20 para officiaes e 100 para praças."

 
 
1904 - Visita do Ministro da Guerra ao Sanatório - recorte
 

1904 - os jornais "Gazeta de Notícias" e "O Paiz" relatam a primeira visita ministerial ao terreno que será o Sanatório. 

O repórter do "O Paiz" diz: "Domingo, pela manhã, os viajantes deixaram a residencia do barão da Bocaina e foram até Boa Esperança, onde existem algumas cachoeiras, que o Sr. ministro da guerra pretende aproveitar para produzir a energia electrica necessaria ao funcionamento de uma fabrica de polvora."

Já a "Gazeta de Notícias" menciona a mesma visita à cachoeira: "O ministro da guerra jantou em São Francisco, na casa do barão da Bocaina, trocando-se ao jantar muitas saudações. Depois seguiu para a Cachoeira Esperança. Nada ficou resolvido sobre a fabrica de polvora. Existe na Cachoeira força dagua de 1.400 cavallos."

 
 
1908 - 8 de janeiro - sobre inauguração - recorte
 

1908 - Em janeiro deste ano o Sanatório está prestes a ser inaugurado. Em nota, a "Gazeta de Notícias" chama atenção à solenidade: "Realisa-se depois de amanhã a inauguração dos edificios do Sanatório Militar, em Lavrinhas, com a assistencia do Sr. ministro da guerra e altas autoridades do exercito."

 
 
1908 - Reportagem sobre inauguração de Sanatório - recorte
 

1908 - Representantes de todos os jornais da capital (Rio de Janeiro) estavam na inauguração do Sanatório Militar. O jornal "Gazeta de Noticias" transcreve a ata de inauguração: "Aos dez dias do mez de janeiro de mil novecentos e oito, em terreno da ex-fazenda Lavrinhas, contravertente da serra da Mantiqueira, territorio mineiro, com a presença de S. Ex. o Sr. ministro da guerra marechal Hermes Rodrigues da Fonseca (...) e outras pessoas gradas, procedeu-se ao acto solemne da inauguração do Sanatório Militar."

A autoridade máxima presente na inauguração, o Sr. marechal Hermes da Fonseca, discursou: "Tenho a satisfação de assistir á inauguração deste edificio, cuja construcção foi confiada á compentencia dos nossos engenheiros militares. Todos os que aqui estão podem verificar que nada nelle foi esquecido. Tudo o que significa conforto e bem estar para aquelles que soffrem foi previsto e disposto convenientemente. Levanto a minha taça para brindar a engenharia militar do meu Brasil."

As obras começaram em 12 de março de 1903, levando 5 anos para serem concluídas. Eram cinco edifícios espaçosos comunicando-se por meio de passarelas abrigadas, totalizando um complexo de 1.600 m². Foram construídas duas enfermarias, cada  uma com capacidade para 21 doentes, os demais prédios eram destinados à administração, cozinha e laboratório.

 
 
carro-de-bois
 

Após 1908 - Por alguns anos o Sanatório teve uma rotina movimentada. Além dos médicos, enfermeiros e trabalhadores, havia a frequente visitação de familiares dos doentes. Também foi um lugar de efervescência cultural. Esta rotina é relembrada pelo avô do Sr. Wanderley Gomes Sardinha, membro da Academia Lorenense de Letras. Na época seu avô trabalhava para o exército no transporte de cargas. Um episódio memorável foi o transporte de um piano em seu carro de boi, veja:

"Às 8 horas deixou a estação com destino ao Sanatório Militar. Em pouco tempo, dezenas de crianças juntaram-se ao lado do carro de boi, para acompanhar o cortejo que se formara. Quando se soube que a carga transportada era um piano, a curiosidade de todos aumentou. Meu pai era um daqueles pequenos e ele me disse que um acontecimento, como aquele, era tão raro que não poderia ser perdido. (...) Aquele instrumento musical fez a alegria do hospital nos 4 anos em que ele funcionou. Ficava no salão de visitas e, após o expediente, sempre havia alguém disposto a tocá-lo. Como a quase totalidade dos médicos, enfermeiros, enfermeiras e funcionários da administração residia no Sanatório, o local de reunião, após o jantar, era junto ao piano. Inúmeros cantores que se apresentaram no hospital tiveram acompanhamento pianística. Mário Pinheiro, o maior cantor do Brasil, no começo do século passado, Roque Ricciardi, o seresteiro da Pauliceia, Eduardo Neves e tantos outros. Nas noites de 6ª feira apresentavam-se no Sanatório os artistas da Vila Vieira do Piquete, Francisco Máximo, Gracioso Maziero e Bonfiglio de Oliveira. A plateia era sempre composta por médicos, enfermeiros, enfermeiras e pessoal da administração, uma vez que os pacientes, quase todos idosos preferiam os conjuntos de violeiros e sanfoneiros que vinham de Itajubá e cidades vizinhas."

FONTE: Jornal Nince, 2013

 

 
 
1912 - beri-beri
 

1912 - O ministro da guerra da época determina que permaneçam no Sanatório somente doentes de tuberculose. Pacientes "beribéricos" e com outras doenças deveriam ser transferidos para o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Segundo o dicionário Priberam de língua portuguesa, beribéri significa: "Doença devida à carência da vitamina B1, peculiar a algumas regiões tropicais e caracterizada por perturbações digestivas, edemas e perturbações nervosas."

Porém, fica um mistério sobre este termo, que carece de pesquisa sobre o que, na época, entendia-se como beribéri. Possivelmente eram diagnosticados assim idosos acometidos com doenças crônicas diversas.

 
 
1912 - Abandono - recorte
 

1912 - As dificuldades começam a surgir na enfermaria militar do alto da Mantiqueira. O problema foi o gradual abandono. A "Gazeta de Noticias" relata em tom de crítica o abandono e o mal uso do dinheiro público: "Foi grande erro a construcção de um Sanatorio naquellas alturas, muito distante de um centro já servido por vias-ferreas e o que é mais grave e lamentavel, num clima intensamente frio." Continua a crítica: "2.000 contos postos fora. O Sanatorio hoje é uma solidão. No abandono jazem os seus pavilhões, no meio daquelle ermo, onde o matto medra assustadoramente..." E completa: "Não exageramos. Dizemos a verdade."

 
 
1913 - suspensão atividades
 

1913 - Neste ano o abandono começa a ser admitido pelo governo. O Sanatório tem suas atividades temporariamente suspensas, a adminstração do exército alega falta de verba.

 
 
1915 - Ainda funciona - epidemia beri-beri
 

1915 - Não se sabe quanto tempo durou a suspensão. Somente em fevereiro de 1915 temos tanto a certeza de seu funcionamento quanto a de que os pacientes já não são somente tuberculosos, pois são transferidos pacientes do Rio de Janeiro com beribéri, como podemos ler nesta nota do jornal "A Noite": "Epidemia de beri-beri no Collegio Militar. (...) Transferir para o Sanatorio Militar dos Campos do Jordão os alumnos cujo estado de saude exigir tal providencia, com a urgencia que não permitta aguardar os tramites habituaes."

 
 
1915 - Sanatório vai fechar - recorte
 

1915 - Em agosto deste ano o chefe do Hospital Central do Exército faz visita ao Sanatório para avaliar seu estado de conservação. Ele relata à "Gazeta de Notícias": "Encontrei-o nas peores condições possiveis, apesar de estar situado em magnifico local, salubre, agradável." Ele completa: "O transporte de doentes faz-se com difficuldade. E os doentes chegam em cima quasi a morrer, cançados."

O repórter pergunta: " — É certo que se vai fechar o Sanatório?", em resposta: " — É. Não ha remedio."

 
 
1916 - O sanatório vai ser demolido - recorte
 

1916 - "O sanatorio de Lavrinhas vae ser demolido?", é a pergunta que se faz o repórter do jornal "A Lanterna" em novembro daquele ano.

Ele completa: "O Sanatorio estava fadado ao abandono. Hoje, delle só resta o predio... Todo o material desceu, até os apparelhos sanitarios, como W.C., lavatorios, banheiros, etc."

Interessante notar como o jornalista afirma que o clima da região seria insalubre para os tuberculosos: "Os doentes chegavam ao alto semi-mortos. Os tuberculosos não supportavam o clima que era humido e a ventania constante. Peoravam. Só os beribericos voltavam bons."

Então, o jornalista profetiza: "O predio, segundo ouvimos, vae ser entregue á Directoria do Patrimonio Nacional, o que quer dizer: vão condemnal-o á ruina."

 
 
1916 - Sanatório entrege ao patrimonio nacional
 

1916 - Por fim, em dezembro do mesmo ano, o sr. ministro da Guerra arremata a condenação do Sanatório Militar de Lavrinhas às ruínas e entrega as instalações ao Patrimônio Nacional.

 

Assim se encerra a história do prédio que um dia foi o famoso Sanatório Militar. Um lugar intrigante, onde até hoje o isolamento se faz presente e o faz desconhecido. Um lugar que merece o cuidado das autoridades deste século, a conservação de sua história e um recomeço através do ecoturismo.

 

Rayllei Bandeira

Jornalista - Delfim Moreira, Minas Gerais

 
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Recorte 1900 São Francisco dos Campos do Jordão

Em 1900.

Turismo de verão na Serra da Mantiqueira.

Veja este curioso anúncio nos classificados da Gazeta de Notícias, periódico do Rio de Janeiro.

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Regulamento do Sanatório

Veja também:

Decreto nº 4.663, de 12 de Novembro de 1902 - Aprova o regulamento para o Sanatório Militar em Campos do Jordão [atual bairro São Francisco no município de Delfim Moreira-MG].

PDF 50 MB Fonte: Biblioteca Nacional

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