Revolução de 1932 «in loco»

HISTÓRIA

Conheça a história desta guerra civil que aconteceu em 1932 e teve importantes batalhas em montanhas que você pode visitar.

tropas piquete2

Guerra Mantiqueira.


A Revolução Constitucionalista de 1932 teve a Serra da Mantiqueira como um dos principais campos de batalha. O Túnel na Garganta do Embaú, na divisa entre Cruzeiro e Passa Quatro, é conhecido pelas maiores batalhas dessa guerra. Porém, pouco se estuda sobre os outros conflitos na Serra. Para preencher esta deficiência de informações pesquisamos livros e jornais da época e contamos detalhes desta história. Tudo se passou aqui, na divisa entre a cidade paulista de Piquete e a vila mineira de Soledade de Itajubá, atual Delfim Moreira, 88 anos atrás.
 
Antes de relatar os acontecimentos precisamos fazer uma importante ressalva: as informações obtidas serão apresentadas sempre destacando a origem da publicação - ou paulista ou federalista. Usaremos somente estes dois termos para definir os dois lados do conflito, já que os termos utilizados pelas publicações originais apresentavam cada adversário de forma claramente tendenciosa. Buscaremos a imparcialidade no relato e, por isso, estamos abertos a revisão deste texto à medida que novos documentos forem sendo descobertos. Favor entrar em contato caso possua informações que possam contribuir com esta pesquisa.
 
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9 de julho de 1932 foi a data que o Estado de São Paulo declarou guerra ao governo central de Getúlio Vargas. Três dias depois, o jornal paulista Diário Nacional noticia a ocupação da fábrica de pólvora de Piquete por tropas paulistas. A localização desta fábrica, próxima ao limite do Estado de Minas Gerais, era de grande importância estratégica e motivaria mais adiante importantes conflitos.
 
Num primeiro momento a cidade de Itajubá se mostrou simpática ao lado paulista. Diversas publicações deixam claro o apoio tácito de Wenceslau Braz, ex-presidente do Brasil e influente político de Itajubá. No entanto, as tropas federalistas de várias partes do país chegavam apressadamente na região. A escritora Ivna Thaumaturgo estava na cidade mineira e relata num de seus livros: "No terceiro dia da revolta, começaram a chegar tropas do Rio e de Juiz de Fora. Os trens passavam repletos de soldados muito bem equipados que, apesar de irem para o front, mostravam grande indiferença e sangue-frio dizendo adeus todos risonhos.", e completa: "Diariamente chegam tropas de todas as partes do Brasil.  Até do Norte chegaram duas companhias do Batalhão de Caçadores. Vemos sempre o trem chegando, pois a estrada passa bem atrás da nossa casa."
 
Em datas muito próximas, as notícias dos jornais paulistas mostram tanto apoio quanto certa hostilidade em Itajubá. O Correio de S. Paulo noticia que em 17 de julho as forças de Piquete iniciaram a ofensiva na direção de Itajubá, e prossegue: "Penetramos alguns quilômetros nas linhas inimigas. Não foram feitos prisioneiros por terem os adversários se retirado sob a pressão do nosso avanço." O mesmo jornal noticia no dia seguinte que as tropas mineiras em Itajubá teriam aderido ao movimento paulista. Um dia depois, em manchete, o Correio de S. Paulo destaca esta adesão de Itajubá e de numerosas cidades do Sul de Minas. Ficam dúvidas, porém, sobre a efetividade desta adesão: "Faltam ainda pormenores, nada dizendo as informações sobre a atitude da tropa federal ali aquartelada, mas, quanto às forças da polícia mineira, parece não haver dúvidas de que elas confraternizam com o exército da [paulista]." Já na mesma folha do jornal contradiz o clima de paz e relata um ataque em Piquete: "Um ataque desfechado contra Piquete foi brilhantemente repelido, com duras perdas para o inimigo."
 
No dia 22 de julho o jornal Correio de S. Paulo noticia uma suposta ocupação pelas tropas paulistas: "Na zona Itajubá houve, durante o dia, violento fogo, terminando o combate pela queda daquela cidade, onde as nossas tropas entraram triunfalmente, debaixo de aclamações entusiásticas da população." Já o jornal federalista Correio da Manhã relata os acontecimentos desta data de outra forma: "Nota-se uma grande atividade das forças paulista, que procuram ganhar as estradas que as conduzam para o sul de Minas. A serra, além de Itajubá Velho, passagem cobiçadissima, tem sido atacada, sem resultado." Eis que um impasse de informações se cria aqui. Provavelmente nunca houve uma ocupação da cidade mineira em si, já que a única fonte que encontramos que relata tal acontecimento é a partidária aos paulistas. O noticiário federalista admite, no entanto, que há grande concentração de forças paulistas na fábrica de Piquete e que por elas está ocupada. O jornal relata ainda o posicionamento das esquadrão federalista: "Da posição em que se encontra [o esquadrão] veem-se todos os movimentos das tropas de São Paulo."
 
No dia 24 de julho o jornal paulista Diário Nacional noticia: "Em Piquete as tropas [paulistas] subiram até o alto da serra, não encontrando forças para combater." Já no dia 28 de julho, o jornal Correio de S. Paulo noticia triunfo no setor de Piquete: "Nossas forças tomaram ao adversário 2 canhões, metralhadoras, copiosa munição, material de sapa e de cozinha, além de obterem a adesão de 80 praças [federalistas]." e o jornal completa: Em Piquete, [São Paulo] conseguiu brilhante vitória sobre as forças [federalistas], fazendo-as recuar para Itajubá Velho [atual Delfim Moreira]." Esta mesma batalha é relatada no livro A Guerra Cívica 1932, de Paulo Nogueira Filho: "Nos dias 26 e 27, hábil manobra do capitão Caiado de Castro resultou na ocupação do Morro do Cabrito. Retirando-se para Itajubá Velha, o adversário, cujo o principal elemento era o 12° RI de Belo Horizonte, deixou grande número de prisioneiros e farto material bélico, no qual se incluíam cozinhas de campanha, instrumentos de sapa , 40.000 tiros de fuzil, armas automáticas e ainda dois canhões 75." Desta batalha, que durou 35 dias, segue abaixo o forte relato in loko do soldado paulista Delfino de Andrade: 
 
Piquete carece de importância para ser chamada de cidade e merecer a atenção dos generais. Mas... lá está instalada a Fábrica de Pólvora sem Fumaça. Aí a razão dos ataques desencadeados contra a vila. O inimigo teria, forçosamente, que surgir de um momento para outro, e com presteza. Logo ao início da campanha, as patrulhas do Exército da Lei assinalaram o avanço dos [federalistas] naquela direção. Eles, a princípio atacaram, julgando naturalmente que se tratava de um flanco do setor de Piquete. Depois, para "despistar", fizeram um grande desvio, porém, vieram cair justamente em terreno aberto, na Estrada de S. Francisco, onde a nossa companhia estava entrincheirada e protegida por uma guarnição de artilharia, pertencente ao Exército. Era o que desejávamos. Era o momento propício para dar uma "sova" nos ditatoriais atrevidos. Com impaciência, aguardávamos a ordem de avançar. E, quando esta chegou, avançamos à primeira trincheira, de onde tiramos o inimigo à ponta de baioneta! E prosseguimos na perseguição ao adversário que, tomado de pânico, já não se defendia, isto é, "defendia a pele", como dizemos nas trincheiras. Da estrada de S. Francisco, atiramos o inimigo em Itajubá Velho, cinco quilômetros além do ponto que estávamos ocupando. Pelo caminho íamos recolhendo a munição abandonada, as armas e os feridos deixados, bem como, enterrando os mortos.
De volta a Piquete - O regresso a Piquete! Nunca hei de esquecer esse dia. Na minha vida de soldado em campanha, pois tomei parte na revolução de 1924, nunca tive um dia tão alegre como aquele de regresso a Piquete! Além de copiosa munição, dois canhões e algumas metralhadoras, viemos escoltando anda menos que 30 presos! A vitória, naquela zona, foi completa. E, para provar isso, basta que se diga que, até hoje, o inimigo não voltou para atacar a Fábrica de Pólvora.
 

Ainda no dia 3 de setembro, o jornal federalista O Radical noticiou a rendição de força paulista com 160 homens do setor de Piquete. Já no dia 20 de setembro de 1932 o jornal Correio de S. Paulo noticia: "O comunicado oficial anuncia hoje um violento ataque ao flanco esquerdo das nossas novas linhas do vale do Paraíba, na região de Piquete. É o primeiro contato sério que temos com o inimigo, nessa frente."

 
O artigo científico do doutorando em História da UFMG, Francis Albert Cotta, expõe a situação na Mantiqueira no final do conflito:
 
Durante mais de dois meses paulistas e mineiros se enfrentaram na Serra da Mantiqueira. Se por um lado os soldados cortaram árvores e arbustos, cavaram trincheiras e tocas nos topos das elevações e deixaram detritos químicos; por outro lado, estes mesmos soldados sofreram no corpo e na alma a serenidade rude da Serra, que tudo assistia. A Serra assistiu: às explosões de granadas e rajadas de metralhadoras a cortar as árvores finas e a ceifar vidas; aos desmoronamentos de abrigos e tocas em virtude das chuvas; à formação de uma mistura feita a partir do suor (fruto das atividades mecânicas e da ansiedade) e da garoa úmida e gelada que molhava os corpos dos combatentes; às dificuldades de transposição do terreno com seus morros, grotas e picos; à falta d água e a alimentação deficiente, que deixavam o militar bambo de fome 33; por fim, a Serra assistiu aos deslocamentos das patrulhas de exploração, aos serviços de vigilância de estradas e ao final dos embates. 
 
No final de setembro a fábrica de pólvora tem seu maquinário básico desmontado e a cidade de Piquete é abandonada pelas tropas paulistas para uma linha recuada em Guaratinguetá. Em seguida as forças federalistas ocuparam Piquete e, logo depois, em 2 de outubro de 1932 ocorreu definitivamente a deposição das armas paulistas. A Revolução Constitucionalista de 1932 chega ao fim.
 
As montanhas que fizeram parte da história podem ser visitadas e suas belezas contempladas de julho a julho. Lugares como: Pico do Cabrito, Ruínas do Sanatório e Pico do Ataque, na divisa que une Minas e São Paulo.
 
 
 

Jornalista responsável: Rayllei Bandeira

Fontes:

9 de julho, 11 de julho, 18 de julho, 18 de julho, 19 de julho, 22 de julho, 22 de julho, 23 de julho, 24 de julho, 26 de julho, 27 de julho, 28 de julho, 2 de agosto, 14 de agosto, 16 de agosto, 20 de agosto, 23 de agosto, 23 de agosto, 3 de setembro, 4 de setembro, 7 de setembro, 16 de setembro, 20 de setembro,  2 de outubro.

 

 
 
 

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